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PINK: INSPIRAÇÃO, ATITUDE E HONESTIDADE.

O TRABALHO PESADO

Um pouco roqueira, um pouco pop, um pouco punk, a cantora e compositora Pink tem desafiado expectativas por mais de décadas. Em uma simples conversa, ela faz uma jornada que vai da Pensilvânia até “Funhouse”.

Por Chris Neal.

Se Pink alguma vez te pedir para escrever uma música com ela, é melhor você ter força para aguentar muita bebida. Ela troca experiências com uma variedade de colaboradores que a ajudaram a lançar cinco álbuns com letras abertas e temáticas. Por exemplo, quando ela se reuniu com Max Martin ( colaborador em “So What” e “U + Ur Hand”), disse ela “A primeira coisa a se fazer é – começar com bebida…”, o mesmo aconteceu com Butch Walker em “Leave Me Alone (I’m Lonely)” “várias taças de vinho tinto – Châteauneuf du Pape, para ser mais preciso. Quando ela pediu a Kara DioGuardi para ajudá-la com a música “Sober”, ela disse a ele: “Vou te deixar bêbado primeiro, porque será muito importante que você se sinta um lixo para produzir essa música.”

Pink não faz tudo isso só porque ela gosta de corromper a reputação de músicos talentosos usando bebida, ela faz isso porque ela adora a ideia de que a arte surge quando as pessoas se sentem à vontade de dizer a verdade – e como já foi dito, com o vinho, “Ficamos leves,” diz Pink com um sorriso. “Nenhum de nós precisa de terapia. Construí um grande círculo de amizade em minha vida com os compositores.”

É um método de trabalho que pelo visto dá muito certo, pensando que a cantora já vendeu mais de 33 milhõs de álbuns por todo o mundo. O mais importante é a honestidade que ela mostra nas letras, e que fez com que ela criasse um laço com seus fãs. Ela diz que os seus shows são como um “grupo de terapia”, para ela e para a audiência. “Passo por tudo o que todos estão passando,” diz ela. “Quando eu tinha 13 anos e escutava Linda Perry, eu ficava do tipo, “Nossa, alguém me entende.” Acho que essa é a maneira como eles se sentem.”

A adolescente Pink era muito mal-compreendida. Ela cresceu em Doylestown, Pensilvânia, filha de um veterano do Vietnam, que ao longo dos tempos foi passando para a filha a paixão que sentia por música. O divórcio dos pais quando ela tinha apenas 7 anos, fez com que ela fizesse da vida algo voltado para o mundo rebelde, com drogas e álcool. Com 14 anos sua mãe chutou-a para fora de casa. Com uma nova vida, Alecia Beth Moore respondia por um apelido diferente de seu nome real: Pink.

Largou as drogas depois que entrou para a carreira artística. Aos 18 anos, assinou contrato com a gravadora LaFace Records, e em 2000 lançou o seu primeiro álbum, “Can’t Take Me Home”. Foi disco platina-duplo, e ultrapassou vendagens de várias cantoras pops que também estavam surgindo na época. ” O primeiro álbum foi um aprendizado,” diz ela agora. “Ninguém queria saber quem eu era, ninguém queria saber como eu me sentia. Foi sobre escrever algo, não foi algo de sentar e ter que chorar. Não toquei na minha vida ou passado.”

O sucesso de “Can’t take Me Home” deu à Pink uma força de poder tomar uma nova direção, e não perdeu tempo. Chamou a heroína que ela tinha em sua adolescência, Linda Perry, para ajudá-la em um álbum mais pessoal que qualquer outro – “M!ssundaztood”, 2001. Ela canta sobre os altos e baixos de sua vida em “Don’t Let Me Get Me”, “Just Like a Pill”, e “Family Portrait”. O álbum vendeu mais de 16 milhões de cópias ao redor do mundo e fez com que a cantora seguisse a linha do pop, rock, punk, sempre tendo atitude e nenhum segredo.

Seu último álbum, “FUNHOUSE”, leva-nos a um território pós-moderno. O primeiro single – “So What”, fala de sua separação do motoqueiro famoso Carey Hart, e o título surgiu de uma visita à uma casa na área de Los Angeles que ambos dividiram. “Se tiver um elefante na sala, vou falar sobre isso primeiro”, imagina ela. “E, então, falo sobre o que os outros estão pensando.” ( Ela e Hart já se reconciliaram.)

Sentamos com Pink em Liverpool antes que ela subisse ao palco e por duas horas cantar grandes sucessos no Echo Arena da cidade. Seus shows fazem com que Pink pule com várias coreografias e acrobacias, tudo ao vivo – dublagem não faz o seu estilo. “Inventamos coisas perigosas e que seja difícil de conseguir seguro de vida. Depois, levamos até o show,” brinca ela. O centro do espetáculo é o que motiva Pink. “É o que mais tenho vontade de fazer,” comenta ela. “Não faria se não tivesse algum significado para mim. Largar todos os cigarros e espelhos, mas cantar o que vem do coração.”

O que te atraiu à música?

Minha lembrança é de meu pai cantando para que eu dormisse quando ainda era bebê. Algum tempo depois, ele ficava tocando violão todas as noites, e sentava e cantava. Essa era a minha língua. Antes de poder falar, eu conseguia cantar. Era o único jeito que as pessoas paravam para me escutarem. Comecei a ter aulas de canto com 9 anos e ganhei meu primeiro prêmio quando eu tinha 9 ou 10 anos. Acho que fui a única com menos de 30 anos naquela competição. Eu cantei “Oh Father”, da Madonna. Sempre tive um lado negro (risadas). O palco é o único lugar que consigo me sentir eu mesma, como se tivesse algo à oferecer para o mundo.

Quando você começou a compor?

Sempre escrevia poesias, e eram muito, muito obscuras. Comecei a usar drogas e escrevia poesias do tipo, “Festas e entusiasmo no chão..” Minha mãe pegou um dos livro de poesias uma vez, e depois de ler perguntou se eu queria morrer. Eu respondi, “Você não pode ler as minhas coisas!  São minhas!” (risadas).

Como que você fez essa transição de poesias para músicas?

Foi colocar a poesia em movimento – tinha que sentir a melodia. Acho que escrevi minha primeira música aos 13 anos.

Sobre o que era?

Nossa, mal me lembro… Acho que se chamava “Generation X”, e falava da tristeza que passava em minha vida de criança.

Você guardou alguma dessas coisas?

Sim, algumas. Guardo meus jornais desde quando eu era criança. Volto e fico olhando para eles, e às vezes consigo lembrar exatamente como escrevia coisas precipitadas. Às vezes leio e penso, “Caramba, em que eu estava pensando?” Outras vezes eu digo, “Disso eu lembro,” ou “Eu lembro desse menino. “Family Portrait”, uma das músicas que escrevi para o álbum “M!ssundaztood”, foi baseado em um poema que eu escrevi quando tinha 9 anos, que foi quando meu pai saiu de casa.

Como você ingressou no mundo da música?

Cantava de tudo. Cantei música gospel em igrejas, tinha banda de punk-rock, treinei e cantei ópera, além de cantar em boates de hip-hop. Aconteceu quando alguém me viu cantando em uma dessas boates, e perguntou se eu gostaria de fazer parte de um grupo de R&B chamado Choice. Fiquei muito feliz, porque o meu sonho de dar o fora da escola estava finalmente chegando (risadas). Naquela hora, não queria mais trabalhar para o McDonald’s. Nesta época eu estava em Atlanta, 16 anos.

Era ainda muito jovem para começar uma carreira. Você se sentia pronta?

Sim, me sentia. Lembro que eu estava assistindo ‘Star Search’ com 9 anos e falando, “Senhor, se eu não conseguir algo ainda este ano, desisto. Nessa idade ainda era nova, mas pensava que se aos 10 anos não obtivesse uma mudança, a vida acabaria.” Ao mesmo tempo, me sentia com muito ansiedade. Nunca tive amigos com a mesma idade. Meu pai me dizia que eu nasci com 1,000 anos e seguia a vida a partir dessa idade.”

Seu primeiro álbum, “Can’t Take Me Home”, foi um sucesso. Como esse álbum soa para você agora?

É gostoso de ouvir. Soa como… você já ouviu Alvin e os Chipmunks? Pareço o Alvin cantando (risadas). Não mudou muita coisa. “Stop falling” é uma música muito pessoal, e naquele momento eu sentia um “Eu consigo”.

Como você lidou com o primeiro brilho do sucesso?

Muito bem, porque não ficou comigo. Nunca tive um desses momentos “Aha!”. Pelo que vejo dos últimos 14 ou 15 anos, pessoas só acreditam naquilo que alcançam ou abaixam a cabeça. Eu sempre seguia em frente. Nunca ficava satisfeita. sentia que precisava fazer algo maior, melhor e mais auntêntico.

Você sentiu pressão para ter que manter o sucesso?

Só da gravadora, não de mim mesma.

Para muitas pessoas no lugar como o seu, a pressão da gravadora pesa muito.

Tinha uma relação muito familiar com L.A. Reid ( fundador e presidente da LaFace). Entrava no mercado com o tempo. Muitos artistas estavam sendo lançados, e as pessoas estavam lá pela música. Foi antes de surgir o Napster, iTunes, etc. Ele era como o meu paizão de negócios, e foi por causa dessa relação que hoje estou aqui. Ele me dava dinheiro do próprio bolso. Eu o chamava por vários nomes e ele fazia o mesmo comigo, mas tinha muito amor e carinho. Nós brigamos porque ambos estávamos emocionalmente dentro do negócio. Mas ao final do dia ele me ligou e disse,
“Está bem, eu acredito em você e vou te dar a oportunidade de falhar.” Eu disse, “Obrigada.”

O que você sentiu ao perceber que o pessoal da gravadora não estava confortável com o fato de você tomar um outro rumo em seu segundo álbum?

Me senti desafiada pelo medo dos outros. Primeiro fiz com que eles me deixassem fazer o que fiz em “M!ssundaztood”, e foi um sucesso, tive um momento “Eu avisei” – e eu amo, amo esses momentos que podemos dizer “eu avisei”. Depois, no terceiro álbum – “Try This”/ 2003, eles pararam de me dizer o que eu deveria ou não fazer, e foi aí que fiquei com medo. Me senti do tipo, “Espere! Não! Me digam o que não posso fazer, e é isso que farei. Não me digam que eu posso fazer o que bem quiser, porque se não irei para a cama.” (risadas).

De onde surgiu a ideia de trazer Linda Perry para compor em seu segundo álbum?

Eu era fã do 4 Non Blondes. Ela era a voz que me guiava em meus momentos ruins da adolescência. Consegui o telefone dela em uma listagem de artistas, e surgiu a ideia. Eu disse, “Certo, vou enchê-la até que ela escreva uma música comigo.” Liguei para ela, deixei mensagens e cantava as músicas dela no telefone. Finalmente ela se cansou de mim, ou não havia mais espaços em sua caixa de mensagens eletrônicas, pegou o telefone e me disse, “Você é muito doida, vamos lá!” Foi esquisito nos primeiros cinco minutos porque eu era muito fã, mas tomamos cerveja e fomos para o estúdio dela. Ela disse, “Certo, como você está se sentindo hoje?” e me deu um microfone. Estava com os meus jornais, e ela disse, “Esqueça isso, só me diga como você está se sentindo hoje.” Literalmente, dez minutos depois, uma música estava escrita, não sabia que estava em mim. Não sabia se tinha algo para dizer naquele dia, e nunca saberia. É assim que as pessoas começavam a me conhecer de verdade. Ela também me disse, “Você é uma sobrevivente, passou por muitas coisas, e mesmo assim é uma garota muito forte. Você construiu uma parede enorme em volta de você, e o meu trabalho é derrubar essa parede. O seu trabalho é nunca mais ser defensiva, porque você sofre de dores que poderiam ajudar outras pessoas.” Acho que nunca mais fiquei retraída e defensiva.

O que você procura em uma colaboração?

Alguém com quem eu possa sair. Alguém que não esteja fazendo esse trabalho para ficar conhecido, alguém que tenha passado por vários momentos e que eu possa confiar. Saberei em cinco minutos quando sentar-me com alguém e começar a contar do meu dia para ver se eles entendem. Às vezes funciona, e às vezes não.

De onde você acha que vem toda essa sua transparência?

Não sei. Não sou boa em ficar escondendo segredos. Várias pessoas já passaram por mim e diziam, “Sabe, você não precisa ser tão transparente.” Nada me choca, nada parece o limite. Gosto de ver as pessoas expondo as almas. Gosto de ver quem as pessoas realmente são.

Quando você vai trabalhar com alguém, você já leva letras prontas?

Não, geralmente não. Tenho notebooks onde poderia criar na hora, ou falar de coisas que me deixem insensível ou feliz. Felicidade, para mim, é o sentimento mais forte quando é escrito em forma de música (risadas). Mas tenho que ser sincera – ao escrever esse álbum, não olhei em meu notebook. Tive minhas próprias inspirações.

Você já tentou escrever sem colaborações?

Não sou tão boa nisso. Toco bateria, mas é difícil de alcançar a melodia só com bateria (risadas). Aprendi a tocar violão, recentemente, – ou estou aprendendo, devo dizer – e estou conseguindo. Existe algo na maneira em que eu aprendi a cantar com o meu pai – ele fazia o acorde, e eu encontrava a melodia. É algo que me faz depender de alguém para criar os acordes. Não é só sentar com um compositor e esperar ele estalar os dedos. Tem algo nesse mistério de não saber aonde o compositor quer chegar que mexe comigo.

Como você enxergaria o futuro?

Não tenho a resposta. Nunca fui do tipo de pessoa que faz planos. Neste exato momento, consegui fazer tudo o que disse que deveria fazer quando eu estava nos meus 9 anos, exceto viajar pelo mundo todo pedindo carona. Quero ajudar animais, produzir vinho, ter uma família, se tornar uma pessoa e compositora melhor, e continuar a fazer turnê. Esse é o futuro para mim.

Odeio ter que te fazer essa pergunta, mas em setembro você fará 30 anos. Como você se sente?

Incrível. Estou muito animada pelos 30 anos. É quando o mundo te pega por baixo, te sacode, te coloca do lado certo, te dá um par de taças e diz, “Está na hora!” Mal posso esperar pelo momento.”

POR DENTRO DA MÚSICA – DEAR MR. PRESIDENT

“As pessoas dizem que não sou a compositora mais expressiva,” diz Pink, “e sou a primeira a admitir que não sou poética e nem sutil.” O exemplo mais claro dessa afirmação é a brilhante carta para o Presidente George W. Bush transformada em música do álbum “I’m Not Dead”. “Estava aborrecida,” comenta ela. “Estava muito irritada. Tudo estava de cabeça para baixo. Me sentia triste pelo estado do nosso mundo.” Ela e o co-escritor, Billy Mann, colocaram no papel várias questões a Bush sobre a guerra no Iraque, aborto e muito mais. “O lado positivo dessa música é que ela é uma música inocente e com questões, ao invés de julgadora e brava, que são coisas que ás vezes sou.” diz ela. Pink disse que depois do lançamento da música, ela recebeu uma carta do veterano David Crosby. “Ele disse, ‘Obrigado por ter escrito essa música. você está carregando a tocha para a sua geração.’, Fiquei, “É mesmo, agora sou boa. Tive o elogio de que precisava.”

POR DENTRO DA MÚSICA – SO WHAT

O primeiro single de ‘Funhouse’ chamou atenção pela primeira estrofe, que Pink canta “Acho que perdi o meu marido, e não sei aonde ele foi.” Essa linha, e música, foi criada quando o amigo do produtor Max Martin – Johan Karl “Shellback” Schuster, mostrou para Pink um ritmo de guitarra. Pink cantou ao som da melodia criada e caiu na risada. “Achei que foi a coisa mais engraçada que já tinha ouvido em toda a minha vida,” comenta ela. “Sou aquela que ri das próprias piadas.” Martin a encorajou de seguir a linha de pensamento, e juntos criaram uma letra que fala da separação longe da vida de estrela. “Para eu ter que dizer – ‘Sou uma estrela do rock’ (no refrão) foi a coisa mais boba que alguém poderia imaginar,” comenta Pink. Pink ficou feliz com o trabalho final, mas ficou preocupada quando a gravadora queria que fosse a primeira música de lançamento do álbum. Preocupada em machucar os sentimentos do ex-marido, Carey Hart, ela pediu para ele aparecer no video, assim todos poderiam ver que ele gostou da brincadeira e que o casal ainda estava em perfeita harmonia. “Sem as pessoas entenderem o amor por trás do sarcasmo, pensariam que a música teria uma mensagem amarga, brava,” explica Pink. “Não queria isso para o Carey e nem para mim. Então deu certo.”

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